De inteligência artificial aplicada à saúde a pilhas feitas com resíduos da mineração: estudantes apresentam projetos na FEBRACE 2026
Soluções criadas por estudantes investigam desafios da saúde, do meio ambiente, das cidades e da tecnologia na maior feira pré-universitária de ciências e engenharia do país.
Sistemas capazes de prever surtos de dengue, sensores que alertam para o risco de deslizamentos de terra, tecnologias de apoio ao diagnóstico médico, soluções ambientais, novos materiais inspirados em recursos naturais e até pilhas produzidas com resíduos da mineração estão entre os projetos apresentados por estudantes na 24ª edição da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (FEBRACE).
A FEBRACE 2026 será realizada de 17 a 20 de março na Universidade de São Paulo (USP). A mostra reúne 297 projetos finalistas desenvolvidos por estudantes do ensino básico e técnico de todas as regiões do país. Os trabalhos estão distribuídos por diferentes áreas do conhecimento — como Ciências Agrárias, Ciências Biológicas, Ciências da Saúde, Ciências Exatas e da Terra, Ciências Humanas, Ciências Sociais Aplicadas e Engenharia — refletindo a diversidade de temas investigados pelos jovens pesquisadores.
A seguir, alguns dos projetos de destaque apresentados na mostra:
Plataforma prevê surtos de dengue – Uma plataforma que utiliza inteligência artificial para prever surtos de dengue com semanas de antecedência foi desenvolvida por estudantes do Colégio Técnico de Campinas (Cotuca-Unicamp), em Campinas (SP). O sistema analisa dados históricos da doença no DATASUS e informações climáticas, identificando padrões que indicam quando o número de casos pode aumentar em cada município. Quando o risco de surto é detectado, outra inteligência artificial entra em ação: ela analisa imagens aéreas feitas por drones e identifica objetos que podem acumular água — como pneus, lonas e entulho — apontando os locais com maior probabilidade de criadouros do mosquito.
IA caça balões no céu – Mesmo proibida no Brasil, a soltura de balões continua sendo uma prática frequente e perigosa. Estima-se que cerca de 100 mil sejam lançados todos os anos no país, provocando incêndios em áreas de preservação e riscos para a aviação, já que esses objetos não aparecem nos radares convencionais. Para enfrentar o problema, estudantes do Colégio Dante Alighieri, de São Paulo (SP), desenvolveram um sistema que usa IA para detectar, rastrear e prever a trajetória de balões em áreas de risco, como aeroportos e parques ambientais. O sistema utiliza câmeras apontadas para o céu e um modelo de visão computacional (YOLOv10) treinado com milhares de imagens de balões, pássaros e aviões. Nos testes, o algoritmo identificou balões em imagens e vídeos com 94% de precisão. Duas câmeras montadas em um sistema motorizado controlado por Arduino calculam a posição do balão por triangulação e acompanham seu deslocamento, permitindo prever a área de queda e emitir alertas antes que um incêndio comece.
Rosto como passagem no ônibus – Esquecer, perder ou ter o bilhete único roubado é um problema comum para muitos usuários do transporte público. Pensando nessas dificuldades, estudantes do CEAP – Centro Educacional e Assistencial Profissionalizante, na zona sul de São Paulo, desenvolveram o MOV+ (Mobilidade, Oportunidade e Valor), um sistema que propõe o uso de reconhecimento facial como alternativa de acesso ao transporte coletivo. A ideia é que o usuário faça um cadastro prévio em uma plataforma on-line, registrando seus dados e a imagem do rosto. No momento do embarque, em vez de utilizar o cartão, o sistema reconheceria a face do passageiro e liberaria o acesso, associando a viagem ao saldo registrado no sistema. O protótipo foi desenvolvido com ferramentas de programação e bibliotecas de inteligência artificial usadas em aplicações de reconhecimento facial. Na FEBRACE, os estudantes demonstrarão o funcionamento da proposta em um totem que simula a entrada de um ônibus: os visitantes podem se cadastrar na plataforma e testar o reconhecimento facial em tempo real.
Névoa contra o calor em Paraisópolis – Em áreas densamente urbanizadas, com pouca vegetação e grande concentração de construções, as temperaturas podem subir muito acima da média da cidade. Esse fenômeno, conhecido como ilha de calor urbano, é especialmente intenso em comunidades como Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, onde a temperatura pode chegar a vários graus acima da registrada no bairro vizinho do Morumbi. Para enfrentar esse problema, um estudante da Escola Alef Peretz desenvolveu o Sistema Termoneblina, um dispositivo simples e de baixo custo que resfria o ambiente por meio da liberação de névoa d’água. O protótipo experimental foi montado com materiais reutilizados — como garrafas PET, tubos de silicone e uma bomba submersa ligada a uma fonte de notebook — que alimentam microaspersores responsáveis por espalhar a névoa. Em testes laboratoriais, o sistema reduziu a temperatura em até 2 °C. O estudante também entrevistou cerca de 200 moradores da comunidade, que relataram impactos do calor excessivo no dia a dia, como dores de cabeça e dificuldade para dormir. A proposta agora é mobilizar esses próprios moradores para instalar o equipamento em ruas e espaços coletivos de Paraisópolis, criando uma rede comunitária de pontos de resfriamento de baixo custo.
Bueiros inteligentes contra enchentes – O entupimento de bueiros por resíduos sólidos é uma das principais causas de alagamentos em áreas urbanas. Para enfrentar esse problema, estudantes da E.E. Prof. Celso Piva, em Guarulhos (SP), desenvolveram um dispositivo eletrônico capaz de monitorar o acúmulo de lixo em lixeiras instaladas dentro de bueiros. O sistema utiliza um sensor ultrassônico conectado a um microcontrolador Arduino para medir a distância entre a tampa do bueiro e o material acumulado na lixeira, estimando o nível de resíduos. As informações são enviadas pela interne para um sistema on-line que registra os dados e permite acompanhar a situação de cada ponto da rede de drenagem. Um módulo de GPS também identifica a localização exata das lixeiras monitoradas. A proposta é facilitar o planejamento da limpeza por prefeituras ou empresas responsáveis pela manutenção, permitindo intervenções antes que o lixo provoque bloqueios na drenagem. A tecnologia amplia a eficiência das chamadas “lixeiras de bueiro” — cestos que retêm resíduos antes que eles entrem na rede pluvial — e busca contribuir para a redução de enchentes e para uma gestão mais inteligente do lixo nas cidades.
Solução revela microplásticos na água – A presença de microplásticos na água potável tem sido detectada em diferentes regiões do mundo, levantando preocupações ambientais e de saúde. Para tornar essa contaminação mais visível, estudantes da Escola Municipal Lenita de Sena Nachif, em Campo Grande (MS), desenvolveram o BlueCheck, uma solução química capaz de indicar a presença dessas partículas na água. O método utiliza azul de metileno combinado com álcool e ácido cítrico. Ao ser adicionada à água e posteriormente filtrada, a mistura faz com que os microplásticos fiquem retidos no filtro e destacados pela coloração azul. Nos testes, foram analisadas amostras coletadas pelos próprios alunos em diferentes fontes domésticas — como torneiras com e sem filtro, galões e poços. Cerca de 26% das amostras apresentaram microplásticos, com concentrações entre 1 e 12 partículas visíveis. Os experimentos também indicaram que filtros domésticos de boa qualidade podem reduzir significativamente a presença dessas partículas.
Parkinson: luva antitremor – Segurar um copo de água ou tomar um medicamento pode ser uma tarefa difícil para pessoas com doença de Parkinson devido aos tremores nas mãos. Para ajudar a reduzir esse problema, estudantes do Colégio Poliedro, em São José dos Campos (SP), projetaram uma luva capaz de estabilizar os movimentos da mão. O dispositivo utiliza sensores para detectar as oscilações involuntárias. Quando o tremor é identificado, pequenos motores de vibração são acionados em pontos específicos da luva, produzindo um contrabalanço mecânico que ajuda a estabilizar o movimento. O diferencial do sistema está na distribuição desses motores em regiões críticas da mão, definidas após um mapeamento das áreas onde os tremores se propagam com mais intensidade. A proposta, de baixo custo, é estabilizar pontos específicos sem interferir nos movimentos voluntários. Durante testes com uma paciente com Parkinson em um lar de idosos, a usuária conseguiu segurar um copo com mais estabilidade para beber água e tomar medicamentos.
Oftalmologia no smartphone – O diagnóstico de doenças da retina costuma depender de equipamentos caros, o que limita o acesso ao exame em muitas regiões. Para ampliar essa triagem, estudantes do Colégio Arena, em Goiânia (GO) propõem um sistema capaz de identificar alterações na retina usando apenas um smartphone. O dispositivo funciona com um acessório impresso em 3D acoplado ao celular, que capta imagens da retina sem necessidade de dilatação da pupila. As imagens são então analisadas por uma rede neural treinada para reconhecer sinais de doenças como papiledema e retinopatia hipertensiva. Após a captura, o software analisa automaticamente os dados e indica se há sinais de alteração. A proposta é ampliar o acesso ao diagnóstico, já que equipamentos tradicionais de exame oftalmológico são caros e a oferta de especialistas ainda é limitada em muitas regiões.
Lixo da mineração vira pilha – A mineração de manganês é uma atividade importante em regiões como Corumbá (MS), mas também gera grandes volumes de rejeitos com potencial impacto ambiental. Para buscar uma solução para esse problema, estudantes do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS) desenvolveram uma pilha sustentável produzida a partir desses resíduos. O material descartado foi triturado, peneirado e lavado até se transformar em um pó fino, usado como componente principal de uma pilha do tipo Leclanché — modelo tradicional conhecido como pilha seca, que já utiliza manganês em sua composição. Para montar o protótipo, os estudantes reaproveitaram a estrutura de pilhas usadas, incluindo o bastão de grafite e o invólucro metálico, compactando o pó com auxílio de um molde impresso em 3D. Nos testes, a pilha gerou cerca de 1,27 volt, energia suficiente para alimentar pequenos dispositivos: o protótipo conseguiu ligar uma calculadora por vários meses e também acionou um trem de brinquedo.
Sistema prevê crises epilépticas – Duas estudantes da Etec de Guarulhos (SP) criaram um sistema de inteligência artificial capaz de prever crises epilépticas antes que elas aconteçam. O modelo analisa sinais de eletroencefalograma (EEG) e identifica padrões da atividade elétrica do cérebro que costumam aparecer antes das crises. Nos testes, o sistema alcançou mais de 80% de acerto, analisando sinais emitidos cerca de 30 minutos antes do episódio. Na FEBRACE, as estudantes vão demonstrar no computador como o programa filtra ruídos nos sinais cerebrais e identifica os padrões associados às crises. A mesma tecnologia também foi testada para interpretar sinais cerebrais ligados à intenção de movimento, o que pode futuramente ajudar pessoas com doenças neurológicas graves a se comunicar.
Assistente clínico para diagnóstico – Um sistema de inteligência artificial desenvolvido para auxiliar médicos a reduzir erros de diagnóstico foi criado por estudantes da Etec Prof.ª Maria Cristina Medeiros, em Ribeirão Pires (SP). A ferramenta, chamada Dr. AIgnóstico, funciona como um assistente clínico: o médico descreve os sintomas do paciente na plataforma e o sistema analisa as informações para sugerir possíveis diagnósticos. O programa compara os sintomas com uma base de conhecimento formada por cerca de 600 documentos médicos, que reúnem informações sobre doenças, sintomas e tratamentos obtidos em fontes confiáveis da literatura da área. A partir dessa comparação, a plataforma apresenta até cinco hipóteses diagnósticas, organizadas por nível de probabilidade. A proposta é apoiar o raciocínio clínico, especialmente em situações de dúvida.
Algoritmo que lê retina – Doenças como glaucoma e retinopatia diabética podem causar danos irreversíveis à visão quando não são identificadas precocemente. Em muitos casos, os primeiros sinais aparecem em exames de retina, mas podem ser difíceis de identificar nos estágios iniciais. Para ajudar nesse diagnóstico, estudantes da Fundação Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha, Novo Hamburgo (RS), propõem um sistema de inteligência artificial capaz de analisar imagens de mapeamento de retina e identificar sinais iniciais dessas doenças. O programa foi treinado com cerca de 6 mil imagens de retina, obtidas em bases públicas e em um banco de dados médico, permitindo que o sistema aprendesse a reconhecer padrões associados às doenças. Nos testes, o modelo alcançou 88,8% de acurácia geral, com desempenho de 96,8% para olhos saudáveis, 98,3% para retinopatia diabética e 71,4% para glaucoma. A proposta é que a ferramenta funcione como apoio ao trabalho médico.
Tecnologia contra má postura – Um colete inteligente capaz de identificar quando a pessoa está sentada de forma incorreta e emitir um alerta imediato para que ela ajuste a postura foi desenvolvido por estudantes do CEFET-MG, campus Divinópolis (MG). O dispositivo utiliza sensores de inclinação instalados no colete, que monitoram continuamente a posição do tronco. Quando o usuário se curva além do limite considerado saudável, motores vibratórios são acionados, alertando sobre o erro postural e incentivando a correção imediata. O sistema também se conecta a um aplicativo que registra os alertas ao longo do dia e gera relatórios sobre os momentos em que a postura é mais comprometida. Assim, o usuário pode identificar em quais atividades ou horários costuma se curvar mais e corrigir hábitos antes que surjam dores ou problemas na coluna.
Cosmético verde amazônico – Parte dos cosméticos industriais utiliza pigmentos e outros compostos químicos que podem conter elementos metálicos indesejáveis, o que levanta preocupações sobre possíveis impactos à saúde e ao meio ambiente. Para buscar uma alternativa mais sustentável, estudantes criaram o Ecolábios, um batom produzido com ingredientes naturais da Amazônia. A fórmula utiliza manteiga de cacau e óleos vegetais como pequi e buriti, conhecidos por suas propriedades hidratantes, além de pigmento natural extraído do urucum. O óleo de buriti também é apontado na literatura por apresentar potencial de proteção contra radiação ultravioleta. Nos testes, o batom apresentou textura, cor e estabilidade semelhantes às de produtos convencionais, além de pH próximo ao da pele. O projeto teve início na E.E.B. Centro Educacional Anchieta, em Itaituba (PA), e continua sendo desenvolvido na Organização Educacional Farias Brito, em Fortaleza (CE).
Pele sintética contra queimaduras – Buscando investigar alternativas para o tratamento de queimaduras graves, uma estudante da Escola Santa Teresinha, em Imperatriz (MA), desenvolveu o Bioskin, um protótipo experimental de enxerto sintético voltado à medicina regenerativa. O material foi produzido a partir de uma matriz de goma xantana combinada com compostos bioativos como albumina, ácido hialurônico e carbopol, além de óleo de buriti, fruto típico da região Norte e Nordeste tradicionalmente utilizado na cicatrização de queimaduras — inspiração que levou a estudante a incorporar o ingrediente ao projeto. Em testes laboratoriais iniciais, o material apresentou atividade antioxidante, ação bactericida contra microrganismos associados a infecções em feridas e propriedades térmicas que podem ajudar na proteção do tecido lesionado. Ainda em estágio inicial de pesquisa e sem testes em organismos vivos, o estudo investiga caminhos para o desenvolvimento de alternativas mais acessíveis na regeneração da pele.
Detector inteligente de arritmia – Alterações no ritmo do coração podem passar despercebidas em exames convencionais e só serem identificadas horas depois. Para facilitar essa detecção, estudantes da E.E. Estelita Tapajós, da Fundação Matias Machline e da IDAAM, todas de Manaus (AM), conceberam um sistema capaz de identificar arritmias cardíacas automaticamente a partir de sinais de eletrocardiograma. O dispositivo capta o sinal do coração por sensores e analisa os dados por meio de redes neurais, indicando imediatamente se o ritmo cardíaco é normal ou apresenta alterações. Quando detecta uma anomalia, o sistema emite um alerta e registra o trecho do exame. O diferencial é que a análise ocorre no momento da medição. Hoje, exames como o Holter registram os sinais cardíacos por até 24 horas para análise posterior. Outro destaque é o custo: enquanto um monitor Holter pode custar cerca de R$ 6 mil, o sistema desenvolvido pelos estudantes tem custo aproximado de R$ 800.
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SERVIÇO:
FEBRACE 2026
Local: Inova USP – Campus da USP
Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 370 – Butantã – São Paulo (SP)
- Dia 17 de março, das 8h30 às 16h30: mostra aberta exclusivamente para autoridades, avaliadores e imprensa.
- Dias 18 e 19 de março, das 8h30 às 16h30: mostra aberta ao público e imprensa. A entrada é franca.
- Dia 20 de março, das 14h às 18h: cerimônia de premiação
- Site oficial: https://febrace.org.br
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Sobre a FEBRACE
A Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (FEBRACE) é promovida pela Escola Politécnica da USP e realizada pelo Laboratório de Sistemas Integráveis Tecnológico (LSI-TEC). Mais do que uma mostra anual de projetos científicos, a FEBRACE integra um amplo programa de promoção da cultura científica e da educação em STEM no Brasil, que inclui cursos on-line gratuitos, formação de professores, iniciativas de educação STEAM e ações de estímulo à pesquisa nas escolas.
A FEBRACE 2026 tem o patrocínio da Embaixada e Consulados dos EUA no Brasil, da Petrobras, da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e do SEBRAE. O Governo Federal apoia a iniciativa por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT); do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), no âmbito do Programa Pop Ciência; do Ministério da Educação (MEC), pelo Programa Escolas em Tempo Integral; e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). O evento conta ainda com apoio do Conselho Regional de Técnicos do Estado de São Paulo (CRT-SP), da Ajinomoto, Ashland, Fundação Siemens Brasil e Instituto 3M.
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